Cutelaria em Pelotas: tradição, arte e mercado ganham espaço entre o aço, o fogo e a identidade gaúcha

Cutelaria em Pelotas: tradição, arte e mercado ganham espaço entre o aço, o fogo e a identidade gaúcha

Da faca campeira ao objeto de coleção, a cutelaria artesanal aproxima Pelotas de uma tradição que une campo, churrasco, design, técnica e memória cultural

Pelotas, cidade marcada pela história do charque, pela arquitetura preservada e pela força de seus ofícios culturais, também começa a ganhar destaque em uma arte que combina precisão, paciência e identidade regional: a cutelaria. Mais do que a fabricação de facas, o trabalho dos cuteleiros envolve conhecimento sobre aço, têmpera, ergonomia, acabamento, madeira, couro e estética.

No Rio Grande do Sul, a faca sempre ocupou um lugar simbólico. Está presente no campo, no churrasco, nas lidas rurais, nas cozinhas e nas coleções. A cutelaria artesanal gaúcha foi reconhecida em 2021 como atividade de relevante interesse cultural do Estado, e a Feira Gaúcha da Faca Artesanal passou a integrar o calendário oficial de eventos do Rio Grande do Sul.

O movimento também ganha calendário próprio em Pelotas. A 1ª Mostra Pelotense de Cutelaria está anunciada para os dias 11 e 12 de julho de 2026, no Clube Brilhante, das 10h às 18h, reunindo expositores e interessados na arte das lâminas.

A cidade tem uma ligação histórica com o charque e com a cultura alimentar do Sul. A economia charqueadora teve papel decisivo na formação do município, com mais de vinte charqueadas em funcionamento em 1830 ao longo do Arroio Pelotas e do Canal São Gonçalo. Esse passado ajuda a explicar por que objetos ligados à carne, ao fogo, ao preparo dos alimentos e à vida campeira ainda têm forte apelo cultural.

A produção de uma faca artesanal envolve escolha do aço, corte, forja, tratamento térmico, têmpera, revenimento, afiação, polimento e confecção do cabo. Cada detalhe interfere na resistência, no fio, no equilíbrio e na durabilidade da peça. Por isso, uma faca artesanal costuma carregar não apenas utilidade, mas autoria.

A Associação Gaúcha de Cutelaria mantém certificações para forjador, cuteleiro forjador e mestre cuteleiro, com exigências de tempo de prática, testes de performance e avaliação de peças. Esse tipo de certificação mostra que a atividade exige técnica e não se resume à produção informal.

Nas redes sociais, Pelotas já aparece com oficinas, lojas e cuteleiros divulgando facas artesanais, peças forjadas e trabalhos personalizados. Também há movimentação em torno da Mostra Pelotense de Cutelaria, anunciada para reunir nomes da cutelaria do Brasil, Argentina e Uruguai, sinalizando que a cidade pode fortalecer um novo nicho de turismo, artesanato e economia criativa.

O crescimento do setor também dialoga com o patrimônio cultural de Pelotas. O município teve a tradição doceira e o conjunto histórico reconhecidos pelo Iphan, em 2018, como patrimônios brasileiros. A cutelaria pode se somar a esse repertório de saberes manuais, aproximando tradição, empreendedorismo e identidade local.

Há, porém, um ponto importante: faca artesanal não deve ser confundida com uso irresponsável. A produção, compra e coleção de facas são atividades legítimas, mas o porte de arma branca em via pública pode gerar enquadramento legal conforme o contexto. O STF validou a aplicação do artigo 19 da Lei de Contravenções Penais para porte de arma branca, quando houver potencial lesivo.

Para Pelotas, a cutelaria representa uma oportunidade concreta: valorizar artesãos, movimentar pequenos negócios, atrair colecionadores, dialogar com a cultura gaúcha e criar novos eventos especializados. Em uma cidade que preserva casarões, sabores e memórias, o aço trabalhado à mão também pode contar uma parte da história local.