Museu da Baronesa guarda a memória de Pelotas entre jardins, objetos e histórias ainda em reconstrução

Museu da Baronesa guarda a memória de Pelotas entre jardins, objetos e histórias ainda em reconstrução

Antiga residência dos Barões de Três Serros, o conjunto histórico do bairro Areal preserva a arquitetura e os costumes da sociedade pelotense do século XIX, mas também amplia o olhar sobre trabalhadores e pessoas escravizadas que sustentaram aquele modo de vida

Em meio aos jardins, lagos, pontes e árvores do bairro Areal, o Museu Municipal Parque da Baronesa ocupa um lugar singular na memória de Pelotas. O casarão rosado, cercado por uma área verde de aproximadamente sete hectares, não representa apenas a residência de uma família influente. Suas salas, móveis, roupas e documentos ajudam a compreender como vivia a elite local durante o período de prosperidade econômica associado às charqueadas.

Ao mesmo tempo, o espaço provoca uma reflexão necessária: por trás da riqueza, das festas e dos ambientes cuidadosamente decorados existia o trabalho de homens e mulheres, muitos deles negros escravizados, que durante décadas permaneceram pouco representados nas narrativas tradicionais sobre a propriedade.

Da chácara particular ao patrimônio público

A residência foi construída em 1863 na antiga Chácara dos Barões de Três Serros. O imóvel pertenceu ao coronel Anníbal Antunes Maciel, que recebeu o título de Barão de Três Serros, e à esposa, Amélia Hartley Antunes Maciel. A família e seus descendentes ocuparam o local ao longo de diferentes gerações.

Em 1978, a residência e a área de sete hectares foram doadas ao Município de Pelotas. Após uma reforma orientada pelo artista plástico Adail Bento Costa, o Museu Municipal Parque da Baronesa foi inaugurado em 1982. Três anos depois, em 1985, os prédios e o parque foram tombados como patrimônio histórico e cultural do município. A instituição é vinculada à Secretaria Municipal de Cultura e conta, desde 1995, com o apoio da Associação de Amigos do Museu da Baronesa, a Ambar.

O nome “Baronesa”, que se consolidou entre os pelotenses, está relacionado a Amélia Hartley. Conforme informações históricas divulgadas pela Prefeitura, o barão faleceu poucos anos depois da construção da residência, enquanto Amélia permaneceu em Pelotas e passou a ser uma referência associada à propriedade.

Uma casa que também funciona como documento

A própria arquitetura é parte do acervo. O solar conserva ambientes que ajudam a interpretar a vida doméstica da segunda metade do século XIX: salões de recepção, dormitórios, espaços de convivência e áreas destinadas ao funcionamento cotidiano da propriedade.

Ao redor da residência, o conjunto reúne elementos inspirados no paisagismo e na arquitetura europeia. Há jardins de influência francesa e inglesa, chafariz, canais, pontes, lagos com ilhas, uma gruta artificial revestida com pedras de quartzo, uma antiga casa de banho e um pequeno castelo ornamental. O parque também abriga a Vila Stella, um sobrado construído em 1935 no estilo conhecido como bangalô americano.

Essas construções revelam como famílias abastadas procuravam reproduzir em Pelotas modelos de elegância e sociabilidade difundidos na Europa. Os jardins não eram somente áreas verdes: funcionavam como espaços de contemplação, recepção de convidados e demonstração de prestígio econômico.

Roupas, móveis e fotografias contam o cotidiano

O acervo reúne mais de mil peças, muitas delas doadas pela família Antunes Maciel e por outras famílias tradicionais da cidade. Entre os itens preservados estão móveis, roupas femininas e masculinas, camisolas, peças íntimas, enxovais, objetos pessoais, utensílios domésticos, fotografias e documentos históricos. O conjunto representa principalmente os costumes da sociedade pelotense entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX.

Uma cadeira, um vestido, um leque ou um conjunto de louças pode parecer apenas um objeto antigo. Dentro de um museu, porém, cada peça ajuda a explicar relações sociais, hábitos de consumo, distinções de classe, comportamentos familiares e mudanças tecnológicas.

As roupas revelam padrões de elegância e as diferenças entre ocasiões públicas e privadas. Os móveis mostram como os cômodos eram organizados. Fotografias e documentos permitem reconhecer moradores, acontecimentos familiares e transformações na cidade.

O desafio da preservação vai além de manter objetos em exposição. Tecidos, madeira, papéis, fotografias e metais exigem controle ambiental, limpeza especializada, inventário, catalogação e acondicionamento adequado. A instituição já desenvolveu projetos de qualificação da documentação museológica, digitalização e organização da reserva técnica em parceria com programas culturais e estudantes da Universidade Federal de Pelotas.

A história que não pode ficar restrita aos salões

Durante muito tempo, museus instalados em antigas residências de famílias ricas concentraram suas narrativas nos proprietários, nos móveis e nas celebrações da elite. Essa perspectiva, embora importante, é insuficiente para explicar como aquelas propriedades funcionavam.

Na Chácara da Baronesa, pessoas negras escravizadas e trabalhadores livres cuidavam da limpeza, da alimentação, das roupas, dos jardins, das crianças e de inúmeras tarefas indispensáveis. Também havia relações entre a propriedade e o sistema econômico das charqueadas, marcado pelo trabalho escravizado e por condições extremamente violentas.

O projeto Visibilidade do Negro no Museu da Baronesa, desenvolvido pela instituição desde a década passada, passou a pesquisar documentos e promover exposições, encontros, oficinas e rodas de conversa. Uma das iniciativas foi a mostra “Para além das senzalas”, que procurou reconstruir trajetórias de pessoas historicamente tratadas apenas como força de trabalho.

Segundo pesquisa apresentada pelo próprio museu, documentos testamentais, registros de nascimento e certidões de óbito permitiram identificar trabalhadores, famílias, casamentos e descendentes ligados à propriedade. A estimativa divulgada pelos pesquisadores indicava que Anníbal Antunes Maciel teria mantido entre 125 e 150 pessoas escravizadas em suas propriedades, com pelo menos 25 delas trabalhando diretamente na chácara.

Incorporar essas histórias não significa apagar os objetos ou os antigos moradores do solar. Significa ampliar a narrativa para reconhecer todas as pessoas que construíram e mantiveram aquele espaço. Essa mudança transforma o museu em um lugar de debate sobre desigualdade, escravidão, resistência, cultura negra e formação social de Pelotas.

Educação e vínculo com a comunidade

O Museu da Baronesa também possui uma importante função educativa. Escolas, universidades, pesquisadores e projetos de extensão utilizam o conjunto para desenvolver atividades sobre arquitetura, história, patrimônio, memória e meio ambiente.

Em 2025, por exemplo, ações organizadas pelo Núcleo de Estudos da Arquitetura Brasileira da UFPel incluíram oficinas de desenho, jogos, exposições acadêmicas, produção de um mapa interativo e uma “cápsula do tempo” destinada a recolher relatos da comunidade sobre experiências vividas no parque.

Essas iniciativas mostram que o patrimônio não deve ser apresentado como algo distante ou pertencente somente ao passado. Muitos moradores mantêm relações afetivas com o local: lembram de passeios familiares, atividades escolares, piqueniques, brincadeiras, encontros e eventos culturais.

O museu ganha força quando a população se reconhece nele. Isso ocorre tanto pela preservação dos objetos históricos quanto pela incorporação das memórias das pessoas que frequentam o parque atualmente.

Restauração recuperou estrutura do casarão

O prédio passou por uma ampla obra de reforma e restauração, concluída no fim de 2024. O investimento informado pela Prefeitura superou R$ 1,5 milhão, com recursos do Fundo de Defesa dos Direitos Difusos, ligado ao Ministério da Justiça.

Os trabalhos incluíram recuperação do madeiramento do telhado, telhas, forros, fachadas, estátuas da platibanda, paredes, escadas, janelas, portas e pisos de ladrilho. Também foram tratadas fissuras, rachaduras e áreas deterioradas das alvenarias internas e externas. Depois da conclusão, iniciou-se o processo cuidadoso de recolocação do acervo.

A restauração representou uma etapa decisiva para preservar o solar, mas não encerrou todas as exigências necessárias para a visitação regular.

Ao longo de 2025, o local recebeu videomonitoramento, nova iluminação externa, quadras esportivas, academia ao ar livre, brinquedos, paisagismo, caminhos pavimentados, áreas de descanso e banheiros públicos. Também possui pista para caminhada e deck próximo ao lago. Durante o verão de 2026, o horário do parque foi ampliado até as 21h.

As melhorias reforçam a função contemporânea do conjunto. A Baronesa não é somente um monumento cercado por grades: é um espaço público utilizado para lazer, atividade física, educação, cultura e convivência.

Preservar também é reinterpretar

O futuro do Museu da Baronesa depende da capacidade de unir conservação e renovação. É necessário proteger o casarão e o acervo, mas também atualizar exposições, ampliar a acessibilidade e apresentar diferentes perspectivas sobre a história de Pelotas.

A antiga residência permite compreender a riqueza produzida no século XIX, a influência política das famílias proprietárias e seus hábitos cotidianos. Mas também deve mostrar quem plantava, cozinhava, costurava, limpava, construía, cuidava das crianças e mantinha a propriedade funcionando.

Ao reunir essas dimensões, o Museu da Baronesa deixa de ser apenas uma casa antiga com objetos elegantes. Torna-se um espaço para compreender as contradições de Pelotas: uma cidade de grande patrimônio arquitetônico e cultural, cuja prosperidade também foi construída sobre desigualdade e trabalho escravizado.

Preservar a Baronesa é proteger suas paredes, jardins, documentos e móveis. Mas é, sobretudo, garantir que todas as pessoas que fizeram parte dessa história possam finalmente ser lembradas.