Do entorno da Praça Coronel Pedro Osório às antigas charqueadas, imóveis preservados ajudam a contar a formação econômica, cultural e social da cidade.
Pelotas é uma cidade onde a história ainda pode ser lida nas fachadas. Nas sacadas de ferro, nos ornamentos importados, nos salões amplos, nos porões, nas janelas altas e nos casarões erguidos no entorno da Praça Coronel Pedro Osório e às margens do Arroio Pelotas, permanece parte essencial da identidade da chamada Princesa do Sul.
Reconhecida desde 2018 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patrimônio Cultural Brasileiro, Pelotas reúne um conjunto histórico que articula arquitetura, tradição doceira, memória urbana e paisagem cultural. Segundo a Prefeitura, 80 bens integram a lista de prédios considerados documentos da história da cidade e do Rio Grande do Sul.
No coração desse patrimônio estão os casarões da Praça Coronel Pedro Osório. Os prédios de números 2, 6 e 8 formam um dos conjuntos arquitetônicos mais emblemáticos do município. Tombados pelo Iphan em 1977, eles representam o ecletismo arquitetônico do fim do século XIX, período em que famílias ligadas à economia do charque, à política e ao comércio projetavam seu poder também por meio da arquitetura.
O conjunto revela uma Pelotas sofisticada para sua época. Os interiores apresentam forros trabalhados, pinturas decorativas, esquadrias com vidros especiais e acabamentos refinados. Nas fachadas, chamam atenção os gradis de ferro fundido, as platibandas ornamentadas, as estátuas e os elementos decorativos de inspiração europeia.
Entre eles, o Casarão 8 tem papel especial na vida cultural contemporânea da cidade. O imóvel abriga o Museu do Doce da Universidade Federal de Pelotas, fundado em 2013, e está diretamente ligado à preservação da tradição doceira pelotense. O Iphan destaca que o museu está instalado no Casarão 8, parte do conjunto arquitetônico tombado em 1977, e reúne acervo relacionado às tradições doceiras de Pelotas e da antiga região de Pelotas.
A Prefeitura também registra que o Casarão 8 foi construído em 1878 e serviu de moradia para a família do Conselheiro Francisco Antunes Maciel. Ao longo do tempo, teve diferentes usos até ser adquirido pela UFPel em 2006, tornando-se espaço de memória, exposição e educação patrimonial.
Já o Casarão 6, também localizado na Praça Coronel Pedro Osório, reforça a importância de dar uso público aos imóveis históricos. O prédio abriga o Museu Etnográfico da Colônia Maciel, com acervo voltado à história da colonização italiana em Pelotas e à memória da Serra dos Tapes.
Mas a história dos casarões pelotenses não se limita ao centro. A Rota das Charqueadas, às margens do Arroio Pelotas, apresenta outro conjunto fundamental para compreender a cidade. São antigas propriedades rurais onde se produzia o charque, base econômica que sustentou o crescimento local no século XIX. Segundo a Secretaria da Cultura do Rio Grande do Sul, esses casarões coloniais hoje são pontos turísticos e permitem conhecer aspectos da vida daquele período.
A Charqueada São João é um dos exemplos mais conhecidos. Construída em 1810, a casa é reconhecida como Patrimônio Nacional pelo Iphan e preserva características arquitetônicas originais e acervo ligado ao ciclo do charque. O local também se tornou conhecido por ter servido de cenário para produções como “A Casa das Sete Mulheres” e “O Tempo e o Vento”.
Ao mesmo tempo, falar dos casarões de Pelotas exige ir além da beleza das fachadas. A riqueza que permitiu erguer muitos desses imóveis esteve ligada à economia charqueadora, sustentada pela mão de obra escravizada. A Secretaria da Cultura do Estado registra que esse período era sustentado pelo trabalho escravo e que, fora da safra do charque, trabalhadores escravizados atuavam também nas olarias, produzindo telhas e tijolos.
Por isso, os casarões são patrimônio arquitetônico, mas também documentos sociais. Eles contam a história das elites, dos charqueadores, dos políticos e das famílias tradicionais, mas também apontam para as camadas invisibilizadas que construíram a cidade: trabalhadores negros escravizados, artesãos, operários, mulheres confinadas ao espaço doméstico e imigrantes que ajudaram a compor a identidade pelotense.
A Praça Coronel Pedro Osório, cercada por prédios históricos, permanece como um dos principais espaços de convivência da cidade. A Prefeitura lembra que o local já recebeu diferentes nomes ao longo do tempo e hoje funciona como ponto de encontro de moradores e visitantes, reunindo lazer, memória e patrimônio urbano.
A preservação desses imóveis, no entanto, é um desafio permanente. Restauração, manutenção, acessibilidade, ocupação cultural e proteção contra vandalismo exigem investimentos e planejamento. Desde o reconhecimento de Pelotas como Patrimônio Cultural Brasileiro, intervenções em áreas protegidas precisam de aprovação do Iphan, o que reforça a responsabilidade pública e privada sobre o conjunto histórico.
Mais do que atrações turísticas, os casarões históricos de Pelotas são peças vivas da memória urbana. Cada fachada preservada ajuda a cidade a reconhecer sua origem, suas contradições e sua vocação cultural. Em tempos de crescimento urbano acelerado, preservar esses imóveis é também preservar uma narrativa: a de uma cidade que transformou riqueza, dor, trabalho, arte e tradição em patrimônio brasileiro.
Onde observar esse patrimônio em Pelotas:
- Praça Coronel Pedro Osório: casarões 2, 6 e 8, Theatro Sete de Abril, Grande Hotel e entorno histórico.
- Museu do Doce: instalado no Casarão 8.
- Casarão 6: espaço ligado ao Museu Etnográfico da Colônia Maciel.
- Rota das Charqueadas: antigas propriedades às margens do Arroio Pelotas.
- Charqueada São João: casarão histórico de 1810 e patrimônio nacional.