Fundado em 1911, primeiro campeão gaúcho da história e dono de uma das torcidas mais identificadas com o futebol do interior, o Xavante atravessa gerações como patrimônio esportivo e cultural de Pelotas
Pelotas (RS) – Em dias de jogo, as ruas próximas ao Estádio Bento Freitas mudam de aparência. Camisas vermelhas e pretas ocupam calçadas, bandeiras surgem nas janelas e o som da torcida anuncia que o Brasil de Pelotas entrará em campo. Mais do que acompanhar uma equipe de futebol, os xavantes participam de uma tradição profundamente ligada à identidade da cidade.
Oficialmente chamado Grêmio Esportivo Brasil, o clube foi fundado em 7 de setembro de 1911 e construiu uma trajetória marcada por conquistas históricas, grandes campanhas nacionais, momentos de reconstrução e uma relação intensa com seus torcedores. Em Pelotas, o Brasil representa futebol, memória familiar e sentimento de pertencimento.
Uma divergência que deu origem ao clube
A história rubro-negra começou entre integrantes do antigo Sport Club Cruzeiro do Sul, agremiação mantida por funcionários da Cervejaria Haertel. Após um desentendimento envolvendo jogadores que desejavam treinar e dirigentes que solicitavam ajuda na construção de uma cerca, Breno Corrêa da Silva e Salustiano Brito decidiram organizar uma nova equipe.
As reuniões de fundação ocorreram na casa do pai de Salustiano, na Rua Santa Cruz. No dia da Independência do Brasil, em 1911, nascia o Grêmio Sportivo Brasil — com “S”, conforme a grafia utilizada na época. O primeiro amistoso terminou empatado em 2 a 2 com o Sete de Setembro, e a primeira vitória foi conquistada em 1912, diante do Tiradentes.
Os resultados não demoraram a aparecer. O clube conquistou o Campeonato Citadino de Pelotas de forma invicta em 1917 e completou o tricampeonato municipal em 1919. Foi justamente naquele ano que o Brasil alcançou uma das maiores realizações de sua história.
O primeiro campeão gaúcho
Em 9 de novembro de 1919, o Brasil enfrentou o Grêmio, campeão de Porto Alegre, na decisão da primeira edição do Campeonato Gaúcho. Para chegar à capital, a delegação pelotense encarou uma viagem de aproximadamente 16 horas em um navio a vapor.
Dentro de campo, o clube do interior contrariou o favoritismo do adversário e venceu por 5 a 1, tornando-se o primeiro campeão estadual da história do futebol gaúcho. A conquista foi celebrada por milhares de pessoas no retorno da equipe a Pelotas e passou a ser representada por uma estrela prateada sobre o escudo rubro-negro.
O título também levou o Brasil ao torneio organizado em 1920 pela antiga Confederação Brasileira de Desportos, que reuniu os campeões gaúcho, carioca e paulista. A participação colocou o clube pelotense entre as primeiras equipes a disputar uma competição nacional no país.
Vitória sobre os futuros campeões mundiais
Outro capítulo marcante ocorreu em março de 1950. Durante a preparação para a Copa do Mundo, a seleção uruguaia convidou o Brasil de Pelotas para um amistoso no Estádio Centenário, em Montevidéu.
O time xavante venceu o Uruguai por 2 a 1, com gols de Mortosa e Darcy. Quatro meses depois, a seleção uruguaia conquistaria o título mundial ao superar o Brasil no Maracanã. O resultado em Montevidéu ganhou ainda mais importância na memória do clube depois do chamado Maracanaço.
Em 1956, o Brasil realizou uma longa excursão internacional. Foram mais de 100 dias de viagem, com partidas em nove países da América do Sul e da América Central. O clube disputou 28 jogos, conquistando 16 vitórias, seis empates e sofrendo seis derrotas. A jornada levou o nome de Pelotas a cidades do Paraguai, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Panamá, Costa Rica, Honduras e El Salvador.
A histórica campanha nacional de 1985
O ponto mais alto do Brasil em uma competição nacional aconteceu no Campeonato Brasileiro de 1985. Com uma equipe comandada por Walmir Louruz e formada por jogadores como João Luís, Bira, Júnior Brasília, Doraci, Lívio e Andrezinho, o Xavante enfrentou clubes tradicionais e chegou às semifinais.
Na campanha, o Brasil eliminou adversários como Ceará, Bahia, Ponte Preta e Flamengo. A vitória por 2 a 0 sobre o clube carioca, no Bento Freitas, permanece como uma das partidas mais lembradas pelos torcedores. O time terminou o campeonato na terceira colocação geral, naquela que o clube considera a melhor campanha de uma equipe do interior gaúcho na história do Campeonato Brasileiro.
A caminhada foi encerrada pelo Bangu nas semifinais, mas a campanha colocou definitivamente o Brasil no mapa do futebol nacional. Para muitos torcedores, o time de 1985 ainda representa a principal expressão daquilo que passou a ser chamado de “garra xavante”.
Bento Freitas: a casa do Xavante
Inaugurado em 23 de maio de 1943, o Estádio Bento Freitas é conhecido popularmente como Baixada. Localizado em uma área central de Pelotas, o estádio tornou-se um dos principais símbolos do clube e guarda histórias de decisões, acessos, clássicos e grandes públicos.
De acordo com o Brasil, o estádio possui capacidade indicada para até 18 mil pessoas. Entretanto, aproximadamente 22 mil torcedores acompanharam a vitória sobre o Flamengo em 18 de julho de 1985. Foram 16.498 pagantes, no maior público registrado pela história oficial da Baixada.
O nome homenageia Bento Mendes de Freitas, ex-presidente e idealizador da construção do estádio. Além do campo e das arquibancadas, o local abriga setores administrativos, espaços institucionais e parte da memória material do clube.
A torcida como parte do espetáculo
O Brasil é conhecido nacionalmente pela força de sua torcida. O apelido Xavante, associado à ideia de luta, resistência e disposição para enfrentar adversidades, passou a identificar tanto a equipe quanto seus seguidores.
Na Baixada, a proximidade das arquibancadas com o gramado cria uma atmosfera característica. Bandeiras, faixas, cantos, papel picado e a tradicional charanga fazem do jogo um evento que ultrapassa os 90 minutos.
O vínculo costuma ser transmitido dentro das famílias. Avós, pais, filhos e netos compartilham lembranças de partidas, jogadores e viagens. Para muitos xavantes, acompanhar o Brasil é uma forma de manter viva a própria relação com Pelotas.
O Bra-Pel, clássico contra o Esporte Clube Pelotas, é um dos principais acontecimentos esportivos da cidade. A rivalidade divide famílias, bairros e grupos de amigos, ao mesmo tempo que reforça a importância de Pelotas como uma das cidades mais tradicionais do futebol gaúcho. O Brasil também mantém a rivalidade local com o Farroupilha, no clássico conhecido como Bra-Far.
Tragédia, solidariedade e reconstrução
A história do clube também foi marcada por um grave acidente com o ônibus da delegação em janeiro de 2009. O preparador de goleiros Giovani Guimarães, o zagueiro Régis Gouveia e o atacante uruguaio Cláudio Milar morreram, enquanto outros integrantes do grupo ficaram feridos.
A comoção mobilizou Pelotas e o futebol brasileiro. Milhares de torcedores participaram das homenagens realizadas no Bento Freitas. Mesmo diante da perda e das dificuldades para reorganizar o elenco, o clube decidiu participar do Campeonato Gaúcho daquele ano. Um memorial na Baixada preserva a lembrança dos três profissionais.
O episódio reforçou a imagem de resistência construída pelo Brasil ao longo de sua história. A reação da torcida, dos funcionários e da comunidade demonstrou que o clube possuía uma estrutura afetiva que ia muito além dos resultados dentro de campo.
A retomada nacional
Depois de temporadas difíceis, o Brasil iniciou uma importante recuperação esportiva na década de 2010. Foi campeão da Divisão de Acesso estadual em 2013, retornando à elite gaúcha, e conquistou o acesso da Série D para a Série C do Campeonato Brasileiro em 2014.
Na temporada seguinte, o Xavante subiu novamente, garantindo presença na Série B. O clube permaneceu durante cinco edições consecutivas na segunda divisão nacional, consolidando-se por vários anos entre as 40 principais equipes do país. Em 2018, também chegou à final do Campeonato Gaúcho e terminou como vice-campeão estadual.
O período demonstrou a capacidade do Brasil de recuperar competitividade mesmo com orçamento inferior ao de muitos adversários. A participação prolongada na Série B ampliou a projeção da marca xavante, trouxe grandes clubes à Baixada e aproximou novas gerações da torcida.
Título invicto e novos desafios
O ano de 2025 apresentou realidades contrastantes. No Campeonato Gaúcho, o Brasil terminou o Quadrangular da Permanência na última colocação e foi rebaixado para a Série A2 de 2026. A campanha registrou cinco pontos em seis jogos, com uma vitória, dois empates e três derrotas.
A reação aconteceu na Copa FGF. O Xavante venceu o Aimoré por 2 a 0 no jogo de volta da decisão e conquistou o torneio de forma invicta. Foram seis vitórias e sete empates em 13 partidas, com 24 gols marcados e oito sofridos. O título garantiu vagas na Série D do Campeonato Brasileiro e na Recopa Gaúcha de 2026.
Na Recopa, disputada em maio de 2026 no Bento Freitas, o Brasil enfrentou o Internacional e chegou a abrir o placar, mas sofreu a virada e foi derrotado por 2 a 1 em uma decisão equilibrada.
A temporada de 2026
Em 2026, o clube passou a aparecer nas competições como Grêmio Esportivo Brasil SAF, dentro de uma nova etapa administrativa e esportiva. O projeto apresenta como objetivo a reconstrução do futebol xavante e a recuperação de espaço nos campeonatos estadual e nacional.
Na Série D, o Brasil iniciou a campanha vencendo o Azuriz por 2 a 1 no Bento Freitas. A equipe integra um grupo regional com representantes do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, buscando avançar às fases eliminatórias e retornar à Série C.
O clube também alcançou novamente a final da Copa FGF. No primeiro jogo da decisão de 2026, o Gramadense venceu por 1 a 0. A partida de volta estava marcada para 22 de julho, no Bento Freitas, com o Xavante tentando conquistar o bicampeonato consecutivo. O atacante Morbeck chegou à decisão como artilheiro da competição, com seis gols.
Outro desafio é a Série A2 do Campeonato Gaúcho, programada para começar no primeiro fim de semana de agosto. A competição reúne 16 equipes, com oito classificadas para as quartas de final. Campeão e vice garantem acesso à primeira divisão estadual de 2027.
Um patrimônio esportivo de Pelotas
A importância do Brasil de Pelotas não pode ser medida apenas por taças ou divisões. O clube faz parte da paisagem urbana, da memória coletiva e da história social da cidade.
Comerciantes, trabalhadores, estudantes, aposentados e famílias inteiras compartilham a identidade xavante. Em torno do clube também circulam empregos, serviços, comunicação esportiva, comércio de produtos, atividades nas categorias de base e projetos comunitários.
Ao longo de mais de um século, o Brasil foi campeão, caiu, retornou, enfrentou crises e reconstruiu equipes. Essa trajetória ajuda a explicar por que o clube mantém uma torcida tão ligada às suas cores.
O futuro apresenta desafios importantes: recuperar a posição na elite estadual, conquistar um novo acesso nacional, fortalecer as categorias de base, modernizar a gestão e preservar o Bento Freitas como símbolo da cidade. Independentemente da divisão, porém, a história mostra que o Brasil continuará mobilizando Pelotas.
Quando o Xavante entra em campo, não representa apenas uma equipe. Carrega a memória do primeiro campeão gaúcho, da campanha de 1985, das arquibancadas da Baixada e de milhares de torcedores que transformaram o vermelho e o preto em parte de suas próprias histórias.